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Na época não sabíamos o que era emo, então chamávamos elas de punkzonas, que era uma forma pejorativa de chamar aquelas meninas de punks. O curioso é que tempos depois, quando descobrimos a expressão emo, o negócio todo fez muito sentido, já que emos, na verdade, não passam de uma forma pejorativa de punks.
Eu e Delfino havíamos conhecido essas meninas há algumas noites, num bar qualquer. Daí naquela noite elas foram em três nos visitar, nenhuma passava dos dezoito anos de idade, umas coisinhas. Trouxeram vodka, refrigerante de limão, algumas fitas k7 e um discurso decorado sobre como esse mundo capitalista selvagem é cruel. Como anfitriões, oferecemos a elas gelo para colocar na mistura de vodka com refri e um bocado de deboche e desdém sobre o discurso decorado.
A noite foi divertida, colocamos um colchão de casal no meio da sala, trocamos as lâmpadas do lustre por lâmpadas vermelhas, e isso misturado com todo o resto deixou o ambiente irresistível. Nos jogamos os cinco no colchão, e riamos e bebíamos o tempo todo. Digo riamos porque qualquer tentativa de colar um daqueles discursos coisa e tal era rebatido por mim, ou por Delfino, por qualquer comentário de bêbado, besta e sem sentido, que invariavelmente terminava em gargalhadas bêbadas de todos nós.
Apesar de punkzonas aquelas meninas eram jóia, bebiam com a gente, sem perder o ritmo. Quando a mistura acabava logo se punham dispostas a encher novamente o caneco.
A noite agonizava, engolida pela madrugada, e àquela altura eu e Natasha já havíamos trocados alguns beijos, além de palavras sacanas. Natasha era um anjinho loiro de olhos azuis e acima do peso. Catei ela pelo braço e carreguei para meu quarto. Nos jogamos na cama. O estrado estalou, mas agüentou. Arrancamos as peças de roupa um do outro e slapt, num escorregão eu estava com meu negócio protegido e seguro dentro dela, quentinho, se esfregando nas paredes de sua xoxota. Abracei seu corpinho de violãocelo e juntos mandamos ver.
Terminamos a tarefa e voltamos para sala. Delfino continuava lá com as meninas, jogados no colchão, bebendo, ouvindo música e falando insanidades. Nos juntamos a eles. A mistura continuava girando pela sala, de mão em mão, boca em boca. As meninas cochichavam qualquer coisa e disparavam risadinhas. Eu e Delfino emendávamos com risadas, depois qualquer citação filosófica sem sentido, uma mão na barriga e a outra aos ares. Daí decorríamos sobre a música das fitas k7 que rodava no stéreo, sobre lâmpadas vermelhas e casas de amizade, seguíamos discursando sobre Marx, a situação histórica de Cuba e os novos rumos da China comunista. Elas sacavam nossa intenção e não levavam a mal nosso deboche, ao invés disso se espalhavam em gargalhadas. Para concluir passávamos mais uma rodada da mistura e a madrugada prosseguia legal.
Beijei Natasha e cochichei no ouvido dela, ela sorriu e se pôs de pé. Levantei também e corremos para o quarto. O estrado estalou, tiramos as peças um do outro com a esperada dificuldade de bêbados e lá estava eu novamente escorregando nas paredes quentinhas. Duas ou três posições diferentes, mandando ver.
Voltamos para sala cambaleando, bêbados, tropecei no colchão e me segurei nela tentando me equilibrar, mas despencamos os dois sobre os outros três e levou algum tempo de gargalhadas e gemidos até nos restabelecermos. Colocamos, então, mais uma da mistura, cheia até a boca, e passamos um para o outro.
Nessa parte já não lembro muita coisa do que acontecia naquele colchão. Lembro de olhar para o teto e ver as lâmpadas vermelhas acesas penduras no lustre. Não lembro da música, mas havia alguma coisa fazendo ruídos no stéreo. Olhei em volta e via alguma coisa no rosto de todos eles que se parecia com sorrisos, só que sorrisos tortos colados a olhos vidrados. Uma das meninas correu para o banheiro com ânsia de vômito. Peguei Natasha pelo braço e sem conseguir dizer nada cambaleei com ela até o quarto. O estrado deve ter estalado, não lembro. Com dificuldade nos despimos e escorreguei para dentro. Deitado sobre ela, ela com suas pernas mais abertas do que nunca, mandamos ver do jeito que foi possível, slapt slapt escorregando dentro dela. Daí apaguei… Quando dei por mim estava esparramado sobre ela. ‘Que houve?’, perguntei. ‘Estavamos trepando e de repente você apagou, dormiu, assim, em cima de mim’, disse ela. ‘Humpf, snif, humf’, resmunguei. Saquei que ainda estava com o negócio dentro dela e me pus a escorregar novamente. Terminamos e me joguei para o lado. Ouvi música vindo da sala. Queria me vestir novamente e voltar para lá, mas Natasha não deixou, me abraçou e me beijou e ficamos por ali mesmo. Logo apagamos.
Quando despertei já era dia. Deixei Natasha dormindo, levantei, me vesti e fui até a sala. Os três dormiam. Delfino estirado no colchão, no meio das duas. ‘Deu sorte, comeu as duas’, pensei. Fui até a cozinha e pus água para ferver para fazer café. Abri a torneira novamente e passei água no rosto. Abri o armário em busca do que comer, soltei um peido, sonoro, e em seguida ouvi risadinhas vindo da sala. Peidei novamente e novamente risadinhas. Daí eu ri também, e apesar de toda bebedeira da noite anterior me sentia bem.
Era uma tarde de domingo e algo fantasmagórico me assombrava. Não sabia o que realmente me punha naquele estado. Mas estar de ressaca naquele apartamento vazio e silencioso, às vésperas de mais uma longa semana de trabalho, sentindo o ar frio da rua que entrava pela janela, criava em mim uma estranha sensação de fim dos tempos (fim para mim, pelo menos).
Vomitei mais um pouco, peguei um João Antônio e desci até a praça para tomar ar puro. Dei uma volta inteira na praça indeciso em qual banco me sentaria, indeciso até mesmo se ficaria na praça ou faria outra coisa qualquer que ainda não sabia o quê.
Depois de completar uma volta inteira na praça, caminhei mais um pedaço e fui me sentar na escadaria da catedral metropolitana. Abri o João Antônio em uma página qualquer e antes que começasse a lê-lo percebi pelo canto dos olhos que minha calça estava toda amassada. Deixei o João de lado e estudei melhor minha calça, também minha camisa e foi só então que lembrei que a roupa que estava vestindo era a mesma com a qual havia saído na noite anterior, e que havia dormido e acordado com ela e que não havia vestido outra desde o dia anterior.
Levantei e caminhei de volta em direção à praça. Os bêbados e mendigos se espalhavam por lá, como de costume. E da forma como me encontrava parecia ser mais um deles, só não estava encardido como eles. Fiz uma caminhada pela praça, a fim de bombear ar puro para meus pulmões. A sensação de fim dos tempos já havia se dissipado, só precisava, mesmo, de uma boa refeição naquele momento, já que a última também datava do dia anterior. Não tinha nada do que comer em casa, e também não tinha dinheiro nos bolsos. Concentrei-me no ar que entrava pelas narinas tentando me convencer do quanto nutritivo era aquilo. Seguia absorto nesses pormenores quando me deparei com uma mocinha sentada em um dos bancos da praça. Me aproximei e sentei ao lado dela. Olhei o piercing no seu nariz, depois estudei seus seios e finalmente fiz um apanhado geral dos pés a cabeça, e nada mal. Virei a capa do João Antônio e fingi ler o que havia na orelha. Só fingi, porque minha cabeça estava tomada pela moça sentada ao meu lado. Percebi pelo canto dos olhos que ela me olhou. Fingi estar concentrado na orelha do João Antônio e deixei que ela me olhasse. Assim que ela deixou de me olhar, olhei para ela novamente e para seu piercing.
- Não dói? – Perguntei. Ela me olhou e completei. – Colocar esse negócio no nariz?
Ela sorriu e respondeu. – Não, eles passam um spray anestésico e não se sente nada.
- Gosto de garotas que usam um desses no nariz, ou na sobrancelha, ou no umbigo. Da um toque de classe. – Ela sorriu sem dizer nada e eu continuei. – Como se chama?
- Melissa.
- Mora aqui no centro?
- Moro nos Ingleses, estou esperando um amigo me ligar, ele mora aqui no centro e combinamos de nos encontrarmos aqui na praça. Mas já estou esperando há uma hora e ele ainda não me ligou. Deve ter esquecido de mim. Droga. – Ela fez uma pausa, tirou um cigarro da bolsa e acendeu. – E você, como se chama?
- Alvarêz. Dewïzqe.
- Como?
- Alvarêz Dewïzqe.
- Nunca ouvi um nome como esse. Uhm. Aceita um cigarro?
- Não, obrigado.
- Onde mora?
- Aqui no centro, bem ali. – Disse eu, apontando para a rua onde ficava o prédio que eu morava. – Num prédio antigo ali na Anita Garibaldi.
- Uhm. Com quem você mora?
- Hoje estou sozinho. Vamos até lá conhecer meu apartamento.
- Claro que não! Eu nem te conheço. E se você for um estuprador e quiser me violentar?
Olhei seus seios e depois suas pernas. Ela vestia uma saia jeans bastante curta que exibia bastante das coxas grossas. – É, pode ser que eu seja. – Disse a ela.
Conversamos por um bom tempo. Ela me contou que era de algum lugar distante que não me recordo. Morava nos Ingleses com uma irmã e o cunhado. Pelo que entendi não trabalhava nem estudava. Talvez mais uma vadiazinha trocando foda por dinheiro. Até ensaiei perguntar a ela quanto cobrava para ir comigo até meu apartamento, mas desisti.
- Qual sua idade?
- Dezoito. – Disse ela. – E você?
- Eu tenho vinte e seis. Você tem coxas bem grossas, gosto delas.
Ela olhou suas coxas e sorriu. – Obrigado. – Em seguida levantou o rosto e olhou para mim. – Foi mentira minha, não tenho dezoito, tenho quinze anos. – Ela esperou algum comentário meu, mas apenas sorri. – Droga. Acho que meu amigo me esqueceu.
- É, parece que sim.
- Vamos até seu apartamento? Estou menstruada e preciso trocar meu absorvente.
- Vamos. – Levantamos e saímos caminhando em direção à Anita Garibaldi. Subimos o elevador e entramos no meu apartamento. Ela olhou em volta, curiosa e em seguida me perguntou onde ficava o banheiro. Apontei, mostrando a direção. Ela caminhou até o banheiro, entrou e fechou a porta. Pude ouvir o ruído do trinco trancando a porta. Larguei o João Antônio sobre o sofá, liguei o rádio e pus música.
Alguns minutos se passaram até que ela saísse do banheiro. Vários minutos, na verdade. Não sabia que para trocar um absorvente era preciso todo aquele tempo. Pensei que talvez ela pudesse ter aproveitado para aliviar os intestinos, também. Não importava. Quando a porta do banheiro se abriu eu estava no meu quarto, a chamei pelo nome e ela veio. Sentou-se ao meu lado na cama e pude apreciar novamente aquele belo par de coxas. Ela viu que eu olhava suas coxas e puxou a saia ainda mais para cima, “para que você possa ver toda ela”, disse. Fiz um movimento rápido e tentei me jogar para cima de Melissa e beijá-la. Mas ela foi mais rápida que eu e num impulso pulou para fora da cama e ficou de pé.
- Não! Nem venha! Estava só te mostrando minhas pernas. Faça isso de novo e eu grito!
- Ei baby, relaxa. É que não pude resistir. Não é fácil ficar olhando um par de coxas como esse bem ao meu lado e não fazer nada. E no mais você é um bocado provocante.
- Você me acha provocante?
- E como!
- Então o que acha disso. – Ela se pôs a dançar bem na minha frente, rebolava e girava, chegando cada vez mais perto. Bem perto. Eu continuei sentado na cama encostado na parede. Ela dançava e suas pernas roçavam em minhas calças.
Deixei que ela me provocasse. Permaneci imóvel, apenas salivando e lambendo os beiços. Então quando ela ficou de costas para mim remexendo os quadris, estiquei meu braço esquerdo e alisei uma de suas coxas, entre as duas pernas. Ela jogou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. Mas não houve tempo nem para que me jogasse para cima dela e novamente ela pulou para longe e virou-se olhando para mim, séria.
- Você é bem folgado, sabia? – Preferi não dizer nada. – Quer que eu grite? Eu grito. Vou até a janela e grito ‘tarado!’ bem alto. – Eu sorri para ela. – Ta rindo por que? Acha que não posso fazer?
- Sei que você é capaz de fazer. Relaxe. Estou apenas sorrindo para você.
Ela tirou um cigarro da bolsa e acendeu. – Se importa se fumar aqui?
- Não.
- Você tem um belo sorriso.
- Obrigado.
- Você toca punheta?
- Sempre que não tenho uma boceta.
- Deixa eu ver seu pinto. Me mostra como você faz.
Desabotoei a calça, desci a braguilha e pus ele para fora. Ela olhou para ele e sorriu. Manteve o olhar fixo nele por todo o tempo. Segurei o bicho e toquei uma na frente dela, suavemente. Ela olhava meu pau com curiosidade, como se visse um pela primeira vez e estivesse agradavelmente surpresa com o que via.
- Ta bom, já vi. Agora pode guardar. – Disse ela, sem tirar os olhos dele.
- Calma baby, deixa que está bom.
- Não quero mais ver isso.
- O que te incomoda, nunca viu um desses?
- Claro que já.
- Quer segurar?
- Não, guarde.
- Pegue, toca uma punheta aqui para mim. Não seja criança.
Isso mexeu com ela. Soltei meu pau e ela se aproximou. Ajoelhou-se bem na minha frente, entre meus joelhos, segurou o bicho e mandou uma punheta. Tinha a mão macia e quente. E estava bom a valer. Já contemplava a possibilidade daquela punheta virar um boquete. Mas num pulo ela pôs-se de pé novamente e se afastou. “Agora guarde”, disse. Guardei o bicho e fechei as calças.
Ela sentou-se ao meu lado novamente e disse, “por um momento tive vontade de te beijar na boca”, “então beije”, respondi. “Agora não tenho mais vontade”, disse ela. Levantou-se da cama, pegou sua bolsa e caminhou até a porta do quarto. “Já vou”, disse ela e sumiu pelo corredor do apartamento. Levantei da cama e fui até a sala. Lá estava ela, de pé postada ao lado da porta. Tirei as chaves do bolso e abri a porta. Ela se inclinou em minha direção, deu um beijo em minha boca, disse tchau e foi embora.
A tarde caminhava para seu fim. Senti vontade de um banho. Senti-me um tolo.
No banheiro o cesto de lixo transbordava de papel higiênico amassado em pequenos rolinhos. Havia vários deles espalhados no chão também, em volta do cesto. Deixei como estava. Tirei minhas roupas e fui para o chuveiro. Não tinha sabonete. Fui até a área de serviço e peguei um pedaço de sabão para lavar roupas que estava sobre o tanque. Voltei para o banheiro e tomei um banho quente e relaxante. Esqueci que era um tolo.
Mais tarde descobri que Melissa havia deixado seu maço de cigarros sobre minha cômoda. Havia sete deles ainda. E antes de ir dormir fumei todos os sete.
Hoje meu espírito pede uma noite diferente, distante
Como daquelas que tivemos juntos, há alguns outonos.
Pede garrafas de vinho, insanidades confortantes,
Uma fuga, só, nada cinematográfico,
Simples apenas, doida o bastante.
Hoje meu espírito quer te buscar e encontrar, onde for
Jogada no sofá, me olhando do colchão.
Quer deitar e sentir o mundo girar, se partir
Te abraçar e esquecer os dias de transe
Ser você até o outono chegar, a folha cair.
Ouvi na rádio um anúncio sobre esse Piano Bar. Eu estava em casa, de saco cheio, e pensei que talvez fosse uma boa ir até lá e tomar umas doses.
Me vesti e saí. Entrei no Fusca do Amor, dei a partida e segui rumo ao endereço descrito na rádio.
Entrei no bar e lá estava ele, o cara no piano, com seus dedos percorrendo as teclas do piano como mágica.
Olhei em volta, havia três ou quatro casais espalhados pelas mesas do bar. Havia um extenso balcão, também, e o barman lustrando e alinhando copos e taças. Atravessei o bar e fui sentar-me ao balcão. Pedi um triplo de Domecq, com gelo, e enquanto o barman servia minha bebida me virei para observar o cara no piano. Era um sujeito beirando os cinquenta anos de idade. Havia postura e elegância na maneira como percorria seus braços por sobre as teclas do piano, costas ereta e cabeça para frente, os olhos compenetrados pareciam apenas observar o movimento dos dedos, dedos esses que pareciam saber por si só a tarefa que tinham a cumprir.
Dei uma bicada em meu Domecq, em seguida mais uma. Havia uma estante espelhada do outro lado do balcão, repleta de bebidas de todos os tipos, e todas elas já pela metade, um pouco mais, um pouco menos.
Passaram-se vários minutos, uma hora talvez, até que então a música do piano cessou. Fez-se silêncio, nenhum aplauso. Os rapazes entretidos em cortejar suas garotas, enquanto elas, infladas o suficiente para acreditar que eram a atração principal da noite. O cara no piano pegou uma toalha e enxugou o suor da testa, em seguida levantou-se e veio sentar ao balcão. Nada disse. Acendeu um cigarro enquanto o barman servia conhaque para ele. Como num ritual, ensaiado e repetido noite após noite, a coisa toda se processava sem que eles trocassem uma palavra. O cara do piano bicou seu conhaque, “belo trabalho”, disse eu a ele, que me olhou e então repeti “belo trabalho” apontando para o piano. Ele esboçou um sorriso e acenou com a cabeça, antes de virar-se novamente para frente e concentrar-se de volta em sua bebida e seu cigarro. Ali, sentado ao balcão, parecia já não ter a mesma elegância que irradiava quando sentado ao piano. Deixava, agora, transparecer a comovente expressão de derrota dos artistas que fracassaram. Daquelas pessoas talentosas, que acreditam em seus talentos, que abrem mão de uma carreira em escritórios, que perdem esposas, maridos, família, acreditando que um dia chegarão lá, e quando finalmente chegam a algum lugar descobrem que esse mundo é estúpido demais para reconhecer o merecido valor do artista e da arte.
Dez minutos depois levantou-se e voltou para o piano. O orgulho recomposto e novamente seus habilidosos dedos deslizando sobre o piano.
Gastei mais duas ou três horas naquele bar, apreciando o talento do cara no piano e bicando algumas doses de Domecq.
Era madrugada quando deixei o Piano Bar. Cheguei em casa e já não estava mais de saco cheio. Coloquei Chopin e me servi qualquer coisa.
Baby, enrolo mais um desses meus incompreendidos cigarros, aqui sozinho nesse gracioso cômodo de tábuas, me sentindo legal sem nem saber por quê.
Lá fora homens inventaram uma nova crise, dizendo, sem tensão nem sorriso, que estamos com a corda no pescoço e que, assim como milagre, as coisas vão piorar mais um pouco. Pobre de mim, pobre de nós, contando e desatando nós, enrolados como fumo em papel de cigarro, queimando, queimando, queimando, aguardando pacientes, sem ter por onde escapar, ou fugitivos, florindo longe de tudo.
Baby, vou enrolar mais um desses meus incompreendidos cigarros, mais silencioso que qualquer trauma ou temor, apaziguado pelo estalo desesperado do fósforo em chamas.
Cães e gatos soberanos correndo livres pelas calçadas, revirando o lixo das casas cercadas por grades e arames. Casas dessas pessoas obesas e hipertensas, reunidas, felizes da vida com suas novíssimas TVs de alta tecnologia, transmitindo no noticiário toda forma de promessa e agonia. Promessa que não passa de capricho vaidoso do mentiroso, que as pessoas compram, usam, e depois jogam no lixo.
Baby, quero queimar mais um desses meus incompreendidos cigarros, olhar a sombra saliente que desenha essa fumaça. Que o vento sopre e leve junto maldades previsíveis.
Vou colocar meu radinho fora de estação, tem muita gente chiando um chiado que não resolve nada. Vou colocar meu pé na estrada, vou apertar o botão, senão, quem sabe, me apertar entre suas coxas. Que fique tudo registrado, eternizado em retratos, para mostrar aos porvir o que valeu a pena. A história está aí, e há quem não se canse de mentir.
Baby, baby… Eu aqui, sozinho, nesse tranqüilo cômodo de tábuas com espaço o bastante para mais um desses incompreensíveis cigarros e qualquer outra coisa que me ajude esquecer parte das coisas que me fazem sonhar com um lugar bem distante.